Jorge Revés

O dia 12 de Março ficará na minha memória como um

dia triste, frustrante, angustiante e profundamente re-
voltante. O cancelamento do FITA foi só o início de um

vendaval que nos abanou as estruturas, moveu os sen-
timentos, frustrou todas as nossas expectativas.

Não há reinvenção possível quando nos vemos impos-
sibilitados de contactar directamente com o público,

cara a cara, respiração a respiração. O online, o stre-
amming não foram feitos para o teatro, não representa

uma alternativa viável. O teatro é palco, é ao vivo e a
cores, ou nalguns casos a preto e branco, mas ao vivo.
Todo o mês de março navegámos à deriva, sem rumo

e sem soluções para a triste realidade que nos asso-
lava, mas em abril conseguimos reagir, de forma lúcida,

positiva, irreverente e solidária. Penso que os artistas
têm esse valor, essa consciência de partilha, de viver
em sociedade e nela intervir e construir.
António Revez
Director artístico, ator e encenador. Companhia Lendias d’Encantar.

Lançámos duas iniciativas solidárias para com os nos-
sos colegas artistas, o projecto “A Minha Casa é uma

Pauta” e “BACA” – Bolsa de artistas e criadores do
Alentejo, sendo que no seu conjunto injectámos cerca
de 50 mil euros no tecido artístico da região. Em junho
começámos a trabalhar. Construímos textos, voltámos

aos ensaios, planificámos o que poderia ser um regres-
so aos palcos… Conseguimos estrear cinco novas cria-
ções até Setembro o que reflete a rapidez com que re-
agimos a esta adversidade. Fomos a primeira estrutura

a apresentar espectáculos ao vivo.
Durante este período, recusámos todas as propostas

de uso das plataformas digitais, acreditamos que o fu-
turo não pode passar por aí, e trabalhámos afincada-
mente para preparar, perspectivar os próximos anos,

que criações fazer, que equipa de trabalho construir,
que projectos realizar…. Foi, e é ainda, um período de
grande discussão interna e de espaço de meditação

com o objectivo de estarmos mais fortes, mais prepa-
rados para o que pode vir aí nos próximos tempos.

Por último, gostávamos de transmitir um desejo: que
as entidades tenham coragem e desafiem o medo. Foi
possível, e somos prova disso, durante estes meses,

realizar actividades culturais com segurança, respei-
tando as normas. O sector cultural não aguenta, não

consegue sobreviver mais tempo sem poder trabalhar.

O medo não pode hipotecar o futuro dos criadores ar-
tísticos, os danos provocados pelo receio, pelo medo,

podem ser irreparáveis.
Jorge Revez escreve de acordo com a antiga ortografia.

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