Este é o último trimestre de um ano absolutamente atípico. A maioria das iniciativas culturais que tínhamos planeadas não se realizaram. E as que se realizaram, não foram consensuais.
Contudo o lugar da Cultura não pode ficar vazio durante muito tempo. Perante o primado da saúde, há quem ache que a ausência de iniciativas culturais é coisa de somenos importância, mas não é.
A cultura possibilita-nos o contacto com diferentes visões do mundo, com linguagens plurais essenciais para sermos pessoas mais tolerantes e indulgentes perante a diferença.
A cultura fomenta o encontro e o sentido de pertença, essenciais para preservamos o sentido de comunidade e o interesse pelo bem comum. A Cultura capacita-nos, confere-nos conhecimento e habilita-nos a uma análise mais capacitada e filtrada sobre o mundo que nos rodeia. A cultura confere-nos memória e identidade, fundamentais para nos sentirmos inteiros e dotados de sentido.
A Cultura proporciona lazer, entretenimento, escape, prazer e recompensa essenciais ao bem-estar da mente e do corpo.
E é por isto que ao lugar da Cultura não se podem permitir grandes ausências, sob pena dos vazios e ausências serem preenchidos por sombras tenebrosas e interesses oportunistas; alguns deles, ameaçadores dos direitos e liberdades que consideramos ter por garantidos.
Nestes novos tempos marcados pela incerteza, pelo medo, pela instabilidade, pela obrigatoriedade de um distanciamento social e afetivo que nos asfixia, a Cultura viu-se privada do seu lugar social e da presença física do seu público. Reinventou-se em novos formatos e ressurgiu em múltiplos suportes, sobretudo digitais e tecnológicos.
Exemplo dessa reinvenção é esta publicação, que perdeu muito do seu enunciado de iniciativas culturais, para em crescendo alcançar ganhos em conteúdo e contribuir, esperamos nós, para a literacia cultural do seu público leitor.
Ainda que, igualmente válido, o ato cultural não se realiza em pleno sem o combinado pulsante e gregário de um público.
E por isso, ainda que sob a prevalência do primado da saúde, foi preciso pouco a pouco e com todas as cautelas, preencher o lugar vazio com pequenos concertos, sessões de contos em largos, mercadinhos de rua, exposições, oficinas criativas e tertúlias.
E avançamos, agora, para desafios maiores como a Feira da Caça, a Feira do Livro ou o Mês da Música, cumprindo com sentido de dever e responsabilidade política, a função de agente cultural que nos foi confiada.
2020 foi um ano desafiante para o setor cultural. Demoramos, imenso, na reação. Deixamos o lugar vazio, durante tempo demais. Pelo caminho, houve quem se perdeu sem retorno: artistas, agentes e técnicos das mais variadas áreas, muitos já vergados pela precariedade e fragilidade laboral, ficaram ainda mais vulneráveis, atirados para uma situação de miséria, onde até para comer o dinheiro escasseia… Do outro lado, do lado do público, agravou-se a solidão, o individualismo, o populismo, os discursos polarizados, a intolerância, a digitalização das relações…
Por isso, ainda que à mercê do escrutínio e da crítica por vezes voraz; ainda que que sob o confinamento de uma máscara, a imposição de uma distância e um sem fim de normas que nos regram os movimentos; decidimos resgatar ao medo o lugar da Cultura.
Esperemos que esta programação seja do Vosso agrado. Esperamos poder concretizá-la. Da nossa parte, fica o compromisso de em cada evento, proporcionar um lugar seguro. Da Vossa parte esperamos a presença, e o mesmo sentido de responsabilidade pelo bem-estar de todos.
Da minha parte, fica um até 2021! Espero que seja um ano melhor para nós e para o mundo, e não falo apenas de COVID